sábado, 29 de novembro de 2008

Henfil

Texto publicado no fanzine Justiça Eterna Zine (http://www.fotolog.com/justicaeterna) n° 27.
HENFIL E SEU TRAÇO CIRÚRGICO "Quando eu faço um desenho, eu não tenho a intenção que as pessoas riam. A intenção é de abrir, e de tirar o escuro das coisas" Depois de alguns textos sobre criações fantásticas dos quadrinhos no mundo como o Calvin, a Mafalda e o Charlie Brown, chegou a hora de falar de um criador (é, ele foi mais do que um cartunista ou um chargista; ele ouvia o que não se falava): Henrique de Sousa Filho, Henfil, para os mais íntimos. Muuuito prazer. Aliás, um prazer preciso, funcional, em um traço quase que invisível, mas que de tão profundo, deixa marcas sobre quem o lê. Henfil fez um tanto assim de gente pensar, através de desenhos sólidos, mas ao mesmo tempo, leves, que se desmanchavam em traços gargalhados de ironia, sarcasmo e acidez. Henfil nasceu em Minas no ano de 1944. Bom, talvez Henfil não tenha nascido. Acho mesmo é que ele brotou da voz de um povo humilhado, massacrado e redimido de várias partes do Brasil. E como é costume dos grandes gênios, Henfil partiu cedo, em 1988, com apenas 43 anos, nos deixando órfãos de uma visão humorística acerca de um Brasil que ainda não mudou. Mas essa partida breve não o impediu de ser intenso, de ser profundo, de criar personagens com uma velocidade espantosa, com a mesma gana que o cara tinha de viver. É, porque viver para ele é que era urgente. O resto não importava tanto. Henfil, assim como seu irmão, Betinho (é, o cara genial da Campanha da Cidadania e da Ação contra a fome) era hemofílico. E em uma das transfusões de sangue, recebeu também o vírus HIV. Mas isso não tirou dele a vontade de existir no mundo, de deixar sua marca, ou melhor, o seu traço. E o Henfil era tão inteligente que conseguiu subverter todo um contexto de ditadura no período em que viveu. Na verdade, não o contexto em si, mas fazia dos seus traços a arma para lutar numa guerrilha quase solitária em torno dos direitos do povo, na busca por uma suposta democracia que podia demorar, mas que não tardaria a chegar. Deu vida a personagens intrigantes como “Os Fradinhos” (Frandins, no sotaque lindamente mineiro), uma dupla impossível formada pela acidez do “Baixim” e pela bondade ingênua do “Cumprido”, que juntos colocavam à prova o riso contido do leitor. Também havia o “trio da caatinga” que criticava o Sul Maravilha, formado pela Graúna, Bode Orelana e o Capitão Zeferino. Sem contar é claro, o personagem típico do contexto da ditadura, aquele cara paranóico, Ubaldo, que de tão preocupado, tornava-se engraçado, numa caricatura invertida da realidade brasileira da época. Ubaldo foi criado por Henfil depois da morte de Wladimir Herzog, em 1975, com o jornalista Tárik de Souza, mas só estreou em 1976, devido, olha só a ironia, à paranóia da época. Henfil chacoalhou o país com as cartas que ele escrevia para a sua mãe, Dona Maria, no Pasquim e depois, em 1976, na revista Isto É, onde tinha liberdade para usar a mãe, através de uma literatura bem rasgada, para falar dos problemas do Brasil. Um gênio esse cara. Uma pena que Henfil não conseguiu viver tempo suficiente para ver a democracia. Mas ele eternizou-se em seu desenho, tão veloz quanto seu pensamento, e que, creio eu, não eram apenas charges, mas sim cartuns de um passado político ainda bem atual aos nossos olhos. Acho que no tinteiro que ele usava tinha sangue. E voz. - Ah, Lídia, imagina, eu nem era tanto assim.... - Você ainda é Henfil... - Sério? Então vou escrever uma carta para minha mãe falando sobre isso... - Pois é, pra você ver... - É, mas o que eu to vendo é uma esperança...igual a Graúna via quando a democracia estava próxima... - Esperança? Do que, Henfil? - De que o pão de queijo já assou... e de que ainda há muito a ser feito pelo Brasil...

Um comentário:

poetinha disse...

eu também quero viver para um dia ver a democracia...