Quando eu era criança, eu imaginava que seríamos eternos. Seria eterna a dor da despedida da sua melhor amiga da escola que iria para outra escola, seria eterna aquela noite que antecedia a temível prova de física, seria eterna a presença dos seus pais, seria eterno o lugar onde a gente nasceu.
Eu vivi em uma casa de esquina pequena, bem pequena, até os 17 anos.
Era pequena mesmo, de ter dois quartos, uma sala, um banheiro (dividido em várias pessoas) e uma cozinha que tinha o chão feito de uma pedra vermelha forte, queimada que ficava bonito quando se passava a enceradeira, quando se agachava no chão para passar cera, quando se comparava o piso da cozinha com o taco da sala.
E a casa era o que tínhamos de melhor.
A porta da sala ainda tinha aquelas aberturas, tipo uma portinha sabe? que era para ver quem chegava antes de abrir a porta. Mesmo que tivéssemos portão, a porta da sala tinha isso. Eu achava isso estranho e bonito ao mesmo tempo. Porque a porta da sala quando aberta ficava refletida no piano que a gente tinha em casa e encostada no som onde meu pai ouvia os discos dos Beatles e do Creedence. E era nessa casa onde a gente morava.
Lembro da minha mãe grávida sentada na cadeira de área no pequeno jardim com os pés na grama tentando aliviar o calor de um mês de dezembro da década de noventa. A casa era número oito-um-oito.
Depois, mudamos de casa, para a casa de trás, maior, espaçosa, com mais quartos. E a casinha da frente continou a existir. Com suas paredes, seus dois quartos, sala, banheiro e cozinha.
E eu nunca mais tive vontade de entrar na casa. Eu passo sempre em frente a casa de número oito-um-oito que tem o mesmo muro de quando eu era criança e me arriscava com meus irmãos e meus primos nas férias a pular de cima desse muro na grama, competindo para ver quem pulava mais alto.
A casa está lá, as paredes estão lá, está tudo lá. Até mesmo a minha memória que ficou presa lá, danada, insistindo em permanecer em se reproduzir entre assombros e lembranças descabidas de saudade. Como em um filme antigo, preto e branco, delicado, feito em película.
Uma construção antiga, pequena, tijolo a tijolo como a minha lembrança insiste em construir cada vez que fecho os meus olhos. E é dentro desses olhos que o coração passa o filme da minha infância, os personagens que lá estiveram, dos meus irmãos pequenos brincando no quintal, na área, da chegada do Papai Noel pela primeira vez e quando eu vi quem era o Papai Noel de verdade depois que numa madrugada qualquer naquela área da pequena casa meu pai tirou os presentes do porta-mala do carro...
Eu não sei ao certo quando terei vontade de voltar lá, naquelas paredes cobertas de lembranças, naquela sofá de alvenaria coberto da gente sentado vendo televisão e da minha mãe trazendo o mingau para a gente comer vendo os filmes que passavam na sessão da tarde.
Eu não sei ao certo mesmo se isso vai acontecer um dia, se eu vou voltar lá mesmo, se vou conseguir entrar na casa.
Só sei que a minha memória mora lá. E liga todos os dias para o meu coração me passando informações precisas acerca daquele espaço que hoje existe porque foi construído na lembrança mais doce de um: manhê, paiê! tive um sonho ruim, posso dormir com vocês?
E aconchegada, os sonhos bons voltavam naquela casinha pequena de esquina.
Alice Via
"Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase" p. leminiski
terça-feira, 14 de maio de 2013
domingo, 16 de dezembro de 2012
Cicatriz
eu sempre achei a palavra cicatriz uma palavra bonita. me lembrava "por um triz". e "por um triz" muitas coisas podem acontecer.
o cenário é uma família que pensa que é uma família, mas na verdade são conhecidos que convivem no mesmo espaço, ou que suportam-se em espaços diferentes. pessoas que têm o número do celular de todas as outras, mas que não se ligam, que não se comunicam.
se tomássemos o cenário como uma família típica dos anos 1930 em um espaço rural teríamos uma mesa de madeira bem grossa, membros sentados nas cadeiras, uma cruz na parede que cortava a sala e um silêncio profundo, daqueles silêncios de fazer barulho e zunido no ouvido.
- pai, embuchei.
- pai, matei um homem.
- pai, tirei o cabaço da moça.
- pai, acabou a farinha.
- pai, vou casar com o fulano.
o remeter contar ao pai os fatos do que acontece ou aconteceu tem um sentido muito forte de confissão. de desabafo, ou também e tanto, de tentar uma comunicação.
e o pai, lentamente tomando a sopa rala de farinha de mandioca diria:
- embuchou sua puta?
- cadê o sangue?
- esse é meu filho, cabra macho.
- se vira, mulher!
- não casa de jeito nenhum. só por cima do meu cadáver. casar e com um negro, onde já se viu...meto uma porrada sem tamanho em ti e nele...
e o isolamento, necessário para o convívio, ou suportamento dos membros da família, estaria garantido no caso de uma tentativa de rompimento. o pai manda e acabou. e ponto final.
e nada que se faça iria alterar essa situação. nada.
ele bateria com força na mesa, cuspindo um pouco de sopa, gritando e impondo o que pensa. sim, estavam todos bem ao redor da mesa, todos que estavam lá estavam bem e com saúde. mas isso não era o mais importante. o mais importante era se impor, dizer quem era e quem mandava ali.
a mãe fazia o nome do pai e pedia a deus que nada de mais grave acontecesse à filha embuchada, que nada de mais grave tomasse força com o casamento da moça loira com o negro, que o menino tivesse sido ao menos delicado em retirar o cabaço da moça, que a morte tenha sido em função de defesa pessoal que houvesse ainda um pouco de farinha.
que a cruz de madeira pendurada atrás da mesa, acima da cabeça do pai caísse com força sobre ele e o matasse. que formasse uma cicatriz ali, bem naquele ponto.
mas por um triz isso não aconteceu. e por um triz a moça embuchada não levou um soco do pai alterado e a moça enamorada do rapaz negro não levou um pontapé.
por um triz a faca que a mãe segurava não acertou em cheio a cabeça do marido.
tudo por um triz. um triz.
o cenário é uma família que pensa que é uma família, mas na verdade são conhecidos que convivem no mesmo espaço, ou que suportam-se em espaços diferentes. pessoas que têm o número do celular de todas as outras, mas que não se ligam, que não se comunicam.
se tomássemos o cenário como uma família típica dos anos 1930 em um espaço rural teríamos uma mesa de madeira bem grossa, membros sentados nas cadeiras, uma cruz na parede que cortava a sala e um silêncio profundo, daqueles silêncios de fazer barulho e zunido no ouvido.
- pai, embuchei.
- pai, matei um homem.
- pai, tirei o cabaço da moça.
- pai, acabou a farinha.
- pai, vou casar com o fulano.
o remeter contar ao pai os fatos do que acontece ou aconteceu tem um sentido muito forte de confissão. de desabafo, ou também e tanto, de tentar uma comunicação.
e o pai, lentamente tomando a sopa rala de farinha de mandioca diria:
- embuchou sua puta?
- cadê o sangue?
- esse é meu filho, cabra macho.
- se vira, mulher!
- não casa de jeito nenhum. só por cima do meu cadáver. casar e com um negro, onde já se viu...meto uma porrada sem tamanho em ti e nele...
e o isolamento, necessário para o convívio, ou suportamento dos membros da família, estaria garantido no caso de uma tentativa de rompimento. o pai manda e acabou. e ponto final.
e nada que se faça iria alterar essa situação. nada.
ele bateria com força na mesa, cuspindo um pouco de sopa, gritando e impondo o que pensa. sim, estavam todos bem ao redor da mesa, todos que estavam lá estavam bem e com saúde. mas isso não era o mais importante. o mais importante era se impor, dizer quem era e quem mandava ali.
a mãe fazia o nome do pai e pedia a deus que nada de mais grave acontecesse à filha embuchada, que nada de mais grave tomasse força com o casamento da moça loira com o negro, que o menino tivesse sido ao menos delicado em retirar o cabaço da moça, que a morte tenha sido em função de defesa pessoal que houvesse ainda um pouco de farinha.
que a cruz de madeira pendurada atrás da mesa, acima da cabeça do pai caísse com força sobre ele e o matasse. que formasse uma cicatriz ali, bem naquele ponto.
mas por um triz isso não aconteceu. e por um triz a moça embuchada não levou um soco do pai alterado e a moça enamorada do rapaz negro não levou um pontapé.
por um triz a faca que a mãe segurava não acertou em cheio a cabeça do marido.
tudo por um triz. um triz.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Tempo Suspenso ou Hiato
Porque na maioria das vezes buscamos palavras para definir um estado de espírito ou uma situação? Será que as palavras podem mesmo defenir? E mais, que palavra define quem somos?
Eu sempre busco uma palavra para definir um espaço, uma ideia, ou um sentimento. Tem pessoas que buscam a música, outros o desenho, a imagem em movimento. Outras tantas ainda buscam o vento, a luz do Sol. Eu busco palavras.
Para mim hoje a palavra que pode definir é a palavra, ou a frase no caso, "tempo suspenso". Aquela palavra que fica na iminência, no desejo, naquilo que ainda não aconteceu, ou não teve tempo de acontecer. Ou que aconteceu apenas em nosso pensamento, em nosso desejo. No tempo suspenso, fora do tempo real.
Talvez que o "tempo suspenso" seja aquele mesmo da condição da solidão. Não de si, nem do outro. Mas da condição de solidão de uma ação, aquele eterno vir-a-ser do desejo, o desejo sozinho consigo mesmo, sem a condição de agir, de ousar.
Essa condição de não ser, de não estar do "tempo suspenso" beira a dimensão do "em haver", daquilo que nos devemos, que devemos a nós mesmos, ao que queremos, ao que somos e desejamos. Para mim essa é condição de subdesenvolvimento social que nos envolvemos, a qual somos inteiramente presentes, de corpo e alma. Essa iminência do vir-a-ser bom, do vir-a-ser tudo o que desejamos, mas que se encontra no "tempo suspenso", no desejo.
Para mim não existe situação mais difícil do que a tentativa, a mola propulsora do erro e do acerto. O tentar ser algo, sair da condição do "tempo suspenso", na vida, no relacionamento, no desejo é o que tem de mais humano, de mais difícil para quem acredita. Esse acreditar está diretamente próximo à condição do desejo, do que se quer materializar, mas não há condições.
Sabe aquele hiato existente entre um momento e outro, entre o momento da concretização do tempo suspenso antes que o desejo volte a imperar? Pois é isso, momentos de hiato. Nossa vida é permeada de tempo suspenso e o hiato desse tempo, quando ele se cansa, quando há uma pausa.
Tal qual um ditongo de fato, quando duas vogais devem estar juntas na mesma linha para que a palavra exista do seu modo mais profundo, muitas vezes o que se tem, são as palavras separadas, as sílabas separadas entre uma linha e outra para que a frase, enfim, possa continuar.
É na vida que os hiatos de um momento e outro separam o tempo suspenso e tentam, em vão, concretizar os desejos. É daqueles dias em que mesmo que se queira que a palavra esteja completa, ausente de separações para que se dignifique a ser exatamente o que se é, que a palavra não cabe, que a palavra separa-se entre um momento e outro do tempo suspenso.
E é assim que a gente se divide para continuar a existir. Para ter mais uma linha, mais um fio de esperança para que o ponto final não chegue, para que mesmo entre um tempo suspenso que outro onde exista um ponto e vírgula, se configure o desejo, se concretize o tempo suspenso.
É dele que a esperança se alimenta. E é ele que a mata também quando o tempo suspenso continua suspenso. Por horas, por dias, por segundos...
Eu sempre busco uma palavra para definir um espaço, uma ideia, ou um sentimento. Tem pessoas que buscam a música, outros o desenho, a imagem em movimento. Outras tantas ainda buscam o vento, a luz do Sol. Eu busco palavras.
Para mim hoje a palavra que pode definir é a palavra, ou a frase no caso, "tempo suspenso". Aquela palavra que fica na iminência, no desejo, naquilo que ainda não aconteceu, ou não teve tempo de acontecer. Ou que aconteceu apenas em nosso pensamento, em nosso desejo. No tempo suspenso, fora do tempo real.
Talvez que o "tempo suspenso" seja aquele mesmo da condição da solidão. Não de si, nem do outro. Mas da condição de solidão de uma ação, aquele eterno vir-a-ser do desejo, o desejo sozinho consigo mesmo, sem a condição de agir, de ousar.
Essa condição de não ser, de não estar do "tempo suspenso" beira a dimensão do "em haver", daquilo que nos devemos, que devemos a nós mesmos, ao que queremos, ao que somos e desejamos. Para mim essa é condição de subdesenvolvimento social que nos envolvemos, a qual somos inteiramente presentes, de corpo e alma. Essa iminência do vir-a-ser bom, do vir-a-ser tudo o que desejamos, mas que se encontra no "tempo suspenso", no desejo.
Para mim não existe situação mais difícil do que a tentativa, a mola propulsora do erro e do acerto. O tentar ser algo, sair da condição do "tempo suspenso", na vida, no relacionamento, no desejo é o que tem de mais humano, de mais difícil para quem acredita. Esse acreditar está diretamente próximo à condição do desejo, do que se quer materializar, mas não há condições.
Sabe aquele hiato existente entre um momento e outro, entre o momento da concretização do tempo suspenso antes que o desejo volte a imperar? Pois é isso, momentos de hiato. Nossa vida é permeada de tempo suspenso e o hiato desse tempo, quando ele se cansa, quando há uma pausa.
Tal qual um ditongo de fato, quando duas vogais devem estar juntas na mesma linha para que a palavra exista do seu modo mais profundo, muitas vezes o que se tem, são as palavras separadas, as sílabas separadas entre uma linha e outra para que a frase, enfim, possa continuar.
É na vida que os hiatos de um momento e outro separam o tempo suspenso e tentam, em vão, concretizar os desejos. É daqueles dias em que mesmo que se queira que a palavra esteja completa, ausente de separações para que se dignifique a ser exatamente o que se é, que a palavra não cabe, que a palavra separa-se entre um momento e outro do tempo suspenso.
E é assim que a gente se divide para continuar a existir. Para ter mais uma linha, mais um fio de esperança para que o ponto final não chegue, para que mesmo entre um tempo suspenso que outro onde exista um ponto e vírgula, se configure o desejo, se concretize o tempo suspenso.
É dele que a esperança se alimenta. E é ele que a mata também quando o tempo suspenso continua suspenso. Por horas, por dias, por segundos...
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Sobre a Morte
Estive pensando esses dias sobre a efemeridade da vida, sobre o tempo, sobre os meus cabelos brancos, sobre a minha pele que não é mais a mesma. E sempre que me pego pensando isso, sobre essa velocidade do tempo, me pego vendo uma imagem muito simples: o tempo em formato humano é bem parecido com a morte, sim, a morte. Aquela morte que a gente vê de cajado, sem rosto.
O Tempo é o parceiro mais forte da Morte, seu melhor amigo, seu amante, aquele por quem ela faz o que quiser fazer.
Vejo o tempo também como um trator, como um primo próximo das casualidades, dos encontros e desencontros. Parceiro da Morte, primo das Casualidades, funcionário do Destino.
E em meio a tudo isso, culpamos sempre a Morte, sendo egoístas, não entendendo seu sentido, sua função. A Morte é apenas uma obscecada pela Vida que não conseguindo viver, tenta ao máximo empurrar o Tempo, descontrolar os Destinos, desandar os Encontros e seus irmãos Desencontros.
Eu nunca tive um contato direto com a Morte. Sei que ela existe, que está aqui, que está perto. Não no sentido de que vai acontecer agora, se bem que eu posso nem terminar esse artigo, mas sei que ela está perto na proposta de acompanhar a Vida onde quer que ela vá. E isso me dá uma certa Insegurança, a mais medrosa das sensações, em suportar ou em continuar a viver quando a Morte insiste em mostrar seu rosto para quem a gente gosta, para quem a gente admira.
O mundo ficou mais triste desde ontem, menos colorido, um pouco mais dolorido com a partida da Márcia Sielski, uma amiga com quem tive o privilégio de conviver quatro anos enquanto fiz faculdade no Paraná. A Márcia para mim não tinha idade. Dizem que ela partiu com 50 anos ontem. Eu acho que a Márcia partiu com todas as idades do mundo e com tudo o que o mundo ainda podia ter dessa mulher que ainda era tão nova, tão feliz e que, quer queira quer não, me deixava reconfortada em saber que ainda tínhamos seres humanos no mundo enquanto a Márcia estava viva.
Hoje, no restaurante onde almoço, vi o peixinho do Cauã, o garotinho bacana de 8 anos, morrer. Ele tinha sido tirado do aquário para limpar o vidrinho, a pequena caixa de vidro onde morava. Quando voltou para lá, ficou no fundinho, entre as pedras e as plantinhas. Sem se mexer.
A dor que o Cauã sentiu foi ouvida no restaurante todo enquanto ele chorava na cozinha. Era um peixe, mas era o peixe preferido dele.
A Márcia me ensinou mais o do que posso descrever aqui, porque ela, assim como tantas outras pessoas em Ponta Grossa, foram para mim, pessoas de luz, que me ensinaram o valor de amar as pessoas, valorizar a arte, as ideias, o respeito ao outro e principalmente ao ser humano.
A falta que ela vai fazer vai ser incrível. Não para mim, porque estaria sendo egoísta ao falar dessa forma, mas para a humanidade.
A mãe do Cauã vai comprar um peixinho novo para ele hoje.
E eu vou procurar uma estrela nova no céu.
O Tempo é o parceiro mais forte da Morte, seu melhor amigo, seu amante, aquele por quem ela faz o que quiser fazer.
Vejo o tempo também como um trator, como um primo próximo das casualidades, dos encontros e desencontros. Parceiro da Morte, primo das Casualidades, funcionário do Destino.
E em meio a tudo isso, culpamos sempre a Morte, sendo egoístas, não entendendo seu sentido, sua função. A Morte é apenas uma obscecada pela Vida que não conseguindo viver, tenta ao máximo empurrar o Tempo, descontrolar os Destinos, desandar os Encontros e seus irmãos Desencontros.
Eu nunca tive um contato direto com a Morte. Sei que ela existe, que está aqui, que está perto. Não no sentido de que vai acontecer agora, se bem que eu posso nem terminar esse artigo, mas sei que ela está perto na proposta de acompanhar a Vida onde quer que ela vá. E isso me dá uma certa Insegurança, a mais medrosa das sensações, em suportar ou em continuar a viver quando a Morte insiste em mostrar seu rosto para quem a gente gosta, para quem a gente admira.
O mundo ficou mais triste desde ontem, menos colorido, um pouco mais dolorido com a partida da Márcia Sielski, uma amiga com quem tive o privilégio de conviver quatro anos enquanto fiz faculdade no Paraná. A Márcia para mim não tinha idade. Dizem que ela partiu com 50 anos ontem. Eu acho que a Márcia partiu com todas as idades do mundo e com tudo o que o mundo ainda podia ter dessa mulher que ainda era tão nova, tão feliz e que, quer queira quer não, me deixava reconfortada em saber que ainda tínhamos seres humanos no mundo enquanto a Márcia estava viva.
Hoje, no restaurante onde almoço, vi o peixinho do Cauã, o garotinho bacana de 8 anos, morrer. Ele tinha sido tirado do aquário para limpar o vidrinho, a pequena caixa de vidro onde morava. Quando voltou para lá, ficou no fundinho, entre as pedras e as plantinhas. Sem se mexer.
A dor que o Cauã sentiu foi ouvida no restaurante todo enquanto ele chorava na cozinha. Era um peixe, mas era o peixe preferido dele.
A Márcia me ensinou mais o do que posso descrever aqui, porque ela, assim como tantas outras pessoas em Ponta Grossa, foram para mim, pessoas de luz, que me ensinaram o valor de amar as pessoas, valorizar a arte, as ideias, o respeito ao outro e principalmente ao ser humano.
A falta que ela vai fazer vai ser incrível. Não para mim, porque estaria sendo egoísta ao falar dessa forma, mas para a humanidade.
A mãe do Cauã vai comprar um peixinho novo para ele hoje.
E eu vou procurar uma estrela nova no céu.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Sobre “pagar peitinho” no País do carnaval
Pois bem que nossos meios de comunicação estão cada vez mais
pudicos, cada vez mais pregando a moral e os bons costumes. Sim meus amigos, mais
do que o dinheiro da classe média, secas, enchentes e nova novela das seis,
temos visto na nossa sociedade (um tanto quanto esquizofrênica) revistas de
fofocas que pipocam em todos os cantos, programas de televisão dedicados a
falar da vida de famosos e sites que comemoram quanto um peitinho aparece.
Estamos em um País medíocre do ponto de vista da moral. Sim,
medíocre. Que País pode falar e julgar se alguém “pagar peitinho” sendo que tem
(e vive) o maior carnaval do mundo, com mulheres nuas e seminuas o tempo todo,
com a maior vastidão de praias, e por conseqüência de coleção de biquínis de
bolinha amarelinha tão pequenininho, com um calor insuportável, com
meninas/mulheres exibindo peitos e pernas em cada esquina se oferecendo aos
gringos, aos não gringos e com programas de baixo calão como BBB e Fazenda onde
o que se mais faz (e o mais importante) é manter o corpitcho em ordem, dar
flagras surpreendentes no mamilo e nas bundas das moçoilas, mantendo uma academia
no reality para que os corpos malhados e suados possam depois ser fotografados
por revistas que vendem (e muito) o chamado “nú artístico”?
Que país é esse que preza a família, a instituição do
matrimônio, a monogamia e o marido e os filhos das celebridades quando a maioria
da população ainda não sabe ao menos usar uma camisinha, onde o sexo na
televisão é explícito e onde a educação e a saúde estão comprometidas em dar o
seu fundo, o que lhe resta de dignidade, para fazer a Copa do Mundo?
Li a matéria sobre a modelo Alessandra Ambrósio que se
“descuidou” e mostrou um dos seios no supermercado em que estava, veja bem, com
os dois filhos, um bebê e uma criança de quatro anos.
Em primeiro lugar, que notícia é essa? De que forma é
relevante para minha ou para sua vida saber que a modelo deixou um, UM dos
seios à mostra?
O paparazzo fez a fotos, publicou e ainda chama a atenção da
moçoila por não usar sutiã. Desculpe, estamos em um país, em um mundo
completamente equivocado de valores, de modelos e de respeito. E uma mídia que
se impõe às mães que devem, DEVEM ficar magras logo após parir, que devem ser
lindas, devem ser supermulheres, supersensuais, supermães, mas não, nunca
mostrar o peito. Mostrar o peito, “ó, nossa”, é um absurdo.
Acho que está na hora de revermos nosso conceito, de
desligar as baboseiras que Sônia Abrão, Adriane Galisteu, Nelson Rubens e
tantos outros dizem a torto e a direito na televisão. De não ler essas notícias
que estampam capas de revistas e de sites, veja bem, até conceituados como o
site da Folha.
Está na hora de vermos que a Alessandra aí nessa foto apenas
foi ao mercado com os filhos. Só isso. Nada fora do comum. Ela não se produziu,
ela não pediu para ser fotografada e nem para ser moralizada sobre o que ela
deve ou não fazer. E nem se deve ou não usar sutiã.
Está na hora de termos um pouco mais de respeito. No caso,
conosco mesmo, com a sociedade e com a humanidade que ainda existe dentro de
nós.
Vá ler um livro e cuidar da sua vida. Deixe as Alessandras e
tantas outras em paz. A vida é maior que um peitinho.
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