quinta-feira, 4 de junho de 2015

A bailarina da Caixinha de Música

Rodava e rodopiava. Em movimentos leves, lentos e delicados, a pequena bailarina da caixinha de música ousava se mexer e chamar a atenção mais do que as joias que, guardadas há algum tempo, insistiam em brilhar.
A bailarininha tinha um sonho: dançar também em frente em espelho grande da casa. Ela já havia visto que no corredor que dava para os quartos havia um espelho grande, bem grande. Desses que dá para ver o corpo inteiro.
Apesar do corpo da bailarininha ser pequeno, bem pequenininho, ela queria ser enxergar inteira. Na caixinha de música, apenas a metade do seu corpo podia ser vista. A bailarina tinha uma roupa rosada, rodada, com colãn, brilhos e um tule como saia. Os cabelos presos em um coque davam o toque final.
Todos os dias, Amélia abria a caixinha de música, mais pela bailarina do que pela música, mais pelas joias do que pela bailarina, para escolher um brinco que lhe agradasse. E então a bailarininha como quem quer ser vista, dançava, dançava e dançava. Mas continuava triste em ficar presa na caixinha de música.
Então um dia Amélia esqueceu a caixinha de música aberta e a música tocou, tocou e a bailarininha dançou até a música acabar. E então saiu da caixinha de música e se pôs a andar pelo quarto. Andou pelas rendas rendadas das camas, pelo chão de taco, passou pelo perfume e atravessou a porta.
E assim, diante dela, viu no fim do corredor o grande espelho, no qual ela ia dançar e se ver por inteira. E então correu para o espelho e começou a se olhar. Olhou as roupas, olhou o cabelo, olhou a sapatilha.
E da cozinha vinha um som diferente, uma música que ela nunca tinha ouvido. Na verdade não sabia nem que existia a cozinha. Mas seguindo a música chegou até lá e ouviu uma doce melodia vindo de uma senhorinha bem velhinha que descascava cenouras para cozinhar.
E ela cantava bem baixinho: só a bailarina que não tem...todo mundo tem...
E a bailarininha levou um susto. Será que tinha sido vista?
Se escondeu rapidamente atrás da porta, perto da tomada e voltou para o espelho. Com o coração acelerado se questionou: o que eu não tenho?
E se lembrou de uma palavrinha bonita que combinava com a palavra bailarina: liberdade.
E então dançou, dançou e dançou procurando a tal liberdade.

O novo

- Acredita em mim?
- Como vou acreditar em vc agora? depois de tudo o que aconteceu, acreditar em vc seria uma grande perda de tempo.
- mas é sério, acredita em mim, só isso que te peço.

era como pedir a Deus uma segunda chance. minhas mãos tremiam, meu coração acelerado, tudo doía, menos a sensação de alívio que eu queria muito ter há algum tempo. está tudo novo de novo, tudo diferente e não sei mais como lidar com isso, com essa maneira nova de enxergar a vida.
como entender todos esses processos de mudanças, como saber para que lado correr, para que lado ir. será que eu nunca consegui ser o que eu queria ser de vdd? estava tudo tão estranho, tão absurdamente diferente que o meu corpo ainda não havia acostumado, nem mesmo a minha mente. pedir ao joão uma segunda chance para ser feliz era só o que precisava naquele momento, como se realmente eu precisasse do perdão, ou melhor, da concessão de alguém para ser eu mesma, para ser o que eu queria ou quisesse ser.
e acredita em mim, estava difícil demais ser eu mesma nesse mundo, nesse absurdo de mundo que eu tão pouco entendia, que eu tão pouco sabia como viver. era como se eu tivesse que reaprender a andar com as duas pernas, no caso, com as minhas pernas, com o meu pensamento e a minha direção.
a saudade que eu tinha do joão, das coisas que vivemos juntos, a saudade que eu tinha de mim quando estava com ele era algo quase absurdo. de doer a alma, de corroer o coração. e eu sabia que me lançar em um desafio novo, em tentar algo diferente em uma cidade tão diferente de mim, valeria a pena. o que eu não sabia é que estar comigo de novo me traria dúvidas, reflexões sobre o que eu gostaria de ser, o que fui e o que pretendo da vida.
era como se todas as minhas pretensões e sonhos tivessem sido jogados dentro de um saco, desses de plástico mesmo, e tivessem amarrado, dando um nó nesse saco. os sonhos lá, pulando de um lado para o outro e eu sem força para rasgar o maldito saco plástico. sem saber se pego uma tesoura, se rasgo com as mãos ou se penso que deixar os sonhos ali, guardados, ensacados é a melhor solução para que eles sejam eternos.
eu não sei quem sou de verdade e misturei o joão em meio a tudo isso, em meio a esse desespero. pedir um tempo porque quero ficar comigo é, na visão dele, quase que uma traição. é uma traição. e eu repetia:
- acredita em mim, acredita em mim...
quase como um mantra. talvez que fosse para que eu acreditasse em mim também de novo. e eu não sei por onde ir e não sei se é isso mesmo, se tenho que confiar em mim, se algo vai dar certo. eu não sei.
definir o lugar que estamos é mais difícil do que definir como estamos. o exterior reflete tudo, e, no meu caso, o exterior deixava de refletir a cada minuto os meus sonhos e a minha vida. para que eu estudei tanto? para que tanta dedicação?
sim, eu estava perdida.
- acredita em mim.