quinta-feira, 27 de novembro de 2008

THE PEANUTS (Charlie Brown)

é, agora os textos...Charlie Brown, com sua cabeça grande e questionamentos intensos, é mais do que uma personagem, é um amigo nosso...
*texto publicado originalmente no fanzine Justiça Eterna Zine n° 26 (http://www.fotolog.com/justicaeterna/23567478)
MEU AMIGO CHARLIE BROWN
Não. Ele não é um ser humano e não existe em carne e osso, mas é meu amigo. Imaginário? Também não. Charlie Brown existe, sim. Só que em um mundo paralelo, onde a humanidade e seus conflitos são retratados pela personalidade de crianças passíveis de análise para qualquer psicólogo... Mas espere aí: como assim? Charlie Brown não é um personagem de história em quadrinhos? Então ele não existe em um mundo paralelo e sim no mundo da arte seqüencial... Para alguns sim. Para outros, ele é o melhor amigo, o irmão, o primo, o colega de sala. Ou um espelho dos fatos que acontecem com qualquer um no nosso dia-a-dia. Charlie Brown é um retrato de nós mesmos em um menininho de cabeça grande e redonda, de poucas risadas e de olhar doce. Ele está sempre aberto a um mundo de novas possibilidades, mesmo sendo difícil para ele enfrentar esse mundo... O jeito de ser de Charlie Brown mostra que apesar da timidez explícita há uma curiosidade pulsante da realidade que o cerca. O garotinho fracassado que não consegue arrumar uma namorada sequer nem jogar bem na liga de beisebol carrega consigo algumas das verdades que mais nos atormentam: o medo de enfrentar a própria vida. Medo, ansiedade, agonia e algumas vezes um riso largo de crença num mundo melhor. Isso apesar do domínio e das humilhações femininas representadas pela personagem Lucy e das tiradas (mentais) do cão Snoopy. Não tem como não conhecer e se apaixonar por Charlie Brown e toda a sua turma. E veja bem, não é qualquer Charlie. É o Charlie Brown. Com nome e sobrenome. Talvez se deva isso à necessidade do próprio personagem de ter uma identidade, de se afirmar como alguém no mundo. Charlie Brown aparece sempre como aquela pessoa que ainda está buscando conhecer a si próprio... Ao ver aquela cara redonda e aquele olhar marcado por dúvidas lancinantes do dia-a-dia em Charlie Brown, imediatamente nos remetemos a nós mesmo e aquele desespero que vez por outra nos marca em anseios: devo chegar naquela menina que gosto? Será que sei jogar alguma coisa? O que devo fazer hoje? Será que darei conta desse trabalho? Dúvidas que atormentam ou já fizeram parte da minha vida, da sua vida e da vida do seu amigo.... O responsável por “cometer” um quadrinho tão bacana e rico de elementos textuais, intertextuais e psicológicos é Charlie Schulz, o próprio alter-ego de Charlie Brown e de toda a turma. Schulz, como parece ser a sina de vários bons desenhistas, era tímido e se sentia também um fracassado. Massacrado por uma mãe severa e pela primeira esposa, representadas na personagem Lucy, Schulz deixou a imaginação correr solta e criou The Peanuts publicando sua primeira tira no jornal St. Paul Press em outubro de 1950. Tirinhas inéditas foram publicada até o ano 2000, antes de Schulz falecer. No ápice de sua publicação, Charlie Brown e sua turma apareciam em mais de 2600 jornais, com um número de leitores estimado em 355 milhões em 75 países. As tirinhas foram publicadas em mais de 40 línguas. Números impressionantes, não? Que confirmam a importância dessas personagens na história das histórias em quadrinhos. Uma vez, Schulz disse em uma entrevista; "os ‘Peanuts’ são a minha vida inteira. Todos os dias lhes dei um pouco de mim”. E não teria como ser diferente. Em toda obra de arte encontramos sempre um pouco do autor... No Brasil, os Peanuts ficaram conhecidos como Minduim, apelido dado a Charlie Brown ou simplesmente “as tirinhas do Snoopy”. Extremamente psicólogico, apesar de Schulz não se referir a isso de maneira explícita, as tirinhas de Minduim alcançaram o mundo e conquistaram gerações de fãs. Bill Waterson, criador de Calvin & Haroldo, se diz um apaixonado por Charlie Brown e toda a sua turma. E não é para menos, tendo em vista que os filhos de Schulz possuem personalidades tão reais que muitas vezes fica difícil se distanciar dos quadrinhos e não percebê-los como amigos próximos. Entre as personagens da série criada por Schulz temos o “bom e velho” Charlie Brown, sempre de cabeça baixa e as mãos no bolso e Sally, a irmã mais nova de Charlie Brown que ele tenta deseperadamente compreender e que vez por outra o humilha também. Sally é apaixonada por Linus, uma criança que tem boas sacadas filosóficas. Linus Van Pelt apresenta nas tirinhas um paradoxo: tem uma filosofia de vida surpreendente, conhece muitas coisas apesar da pouca idade, mas vive grudado em um cobertor azul chupando o dedo. O que apresenta um perfil psicológico um tanto quanto ainda debilitado. Linus é o irmão mais novo da representação feminina da repressão: Lucy, a personagem mais mal humorada das séries das HQs. Mandona e chata, Lucy vive se metendo na vida de todos. Dá conselhos para os amigos, mas na verdade ninguém os pediu. Os conselhos dados a Charlie Brown são cobrados na barraquinha de psiquiatria montada por Lucy porque para o Charlie Brown nada é de graça. E ele sabe que a vida tem lá as suas dificuldades... Lucy incurtiu na cabeça do pobre Charlie Brown que ele precisa de conselhos médicos e tratamento psicológico... tsc, tsc. E ele acreditou. Lucy tem uma paixãozinha secreta por Schroeder, o artista da turma. Talvez a inteligência seja mesmo algo afrodisíaco... Ou seja, um dos seus pontos fracos é o amor. (Mas de quem não é, não é mesmo?) Schroeder é um músico que vive em um mundinho particular. De lá, tira melodias maravilhosas de um pianinho de brinquedo tentando em vão não interagir com um mundo real que lhe é apresentado toda vez que Lucy chega lhe pedindo em casamento... Na visão de alguns filósofos e pensadores, Schroeder pode ser considerado um artista que se refugiou na arte para não ter que fazer contato com a realidade, pois Schroeder tem uma personalidade um tanto quanto fechada em si mesmo... A sua mais forte relação com o mundo se dá apenas pela paixão que ele sente por Bethoveen. Há ainda outros personagens como a Patty Pimentinha e a Marcie que são grandes amigas e o Woodstock, um passarinho amarelo amigo de Snoopy que tem até um dialeto próprio grafado em pontos de exclamação. Esse dialeto só é entendido por Snoopy, que conversa mentalmente com Woodstock. Temos qui um dos pontos altos da HQ de Schulz: o cão Snoopy, sua relação com o mundo e com o seu dono Charlie Brown. Se traçarmos um paralelo entre Charlie Brown e Snoopy temos duas personagens com características bem distintas: uma extremamente existencialista, na busca constante por si mesma (Charlie Brown) e outra completamente despida de consciência, buscando viver apenas o hoje da maneira mais interessante possível (Snoopy). Snoopy não sabe o nome de Charlie Brown, só o reconhece por ser “o garoto de cabeça redonda que leva comida para ele”. Snoopy representa a fantasia que “deveria” estar presente nas personagens que permeiam a tirinha e nos próprios seres humanos. Na verdade, transformamos essa fantasia em trabalho e em falta de tempo e nos esquecemos, muitas vezes, de viver plenamente, ou até mesmo de sonhar. Com a possibilidade de ser quem quiser, Snoopy uma hora é escritor com sua própria máquina de escrever, da qual tira textos maravilhosos de cima de sua casinha de cachorro. Outra hora é um aviador da segunda guerra fazendo referência direta aos fatos acontecidos com o próprio Schulz que teve que lutar na Segunda Guerra Mundial. Em entrevista, diz o desenhista que ter que ir pra guerra foi bom, pois voltou com menos medo e mais expansivo. Veja que ele até casou depois que voltou da guerra. Uma dádiva para quem se sentia um fracassado... Snoopy tem em si a possibilidade da existência por completo, já que é um cão e não tem preocupação humana, apesar de agir como humano muitas vezes e em algumas tirinhas até mesmo andar sobre duas pernas. Snoopy não fala, mas pensa. E muito. Muitas vezes parece pensar alto, o que deixa Lucy extremamente irritada. Snoopy vive o presente sem se cobrar de ser alguém melhor ou ter crises existenciais. O que é espantoso, ou melhor, paradoxal para um cachorro praticamente humano.... Já Charlie Brown ainda não sabe o que está fazendo no mundo. E talvez seja isso o mais encantador na personagem. Constantemente em busca de si mesmo, se perde em dúvidas e pensamentos, mas não deixa de ser criança e algumas vezes ter espasmos de alegria ao sentir paixão por uma garota ruiva ou quando consegue fazer algo superando suas próprias expectativas. Devemos, entretanto, refletir sobre outras personagens do mundo das histórias em quadrinhos para compreendermos a dinâmica presente em “The Peanusts”: Calvin é aquela criança ativa, cheia de imaginação que troca altas idéias com seu tigre de pelúcia, o Haroldo, sendo que só ele, o próprio Calvin, vê o tigre como um ser vivo. Mafalda é uma socióloga mirim. Raramente a vemos brincando como uma criança qualquer por que ela está sempre preocupada com a situação do mundo, hora é uma apocalíptica hora é uma integrada aos fatos da realidade. Charlie Brown mistura as duas personalidades anteriores em uma criança que parece ter dentro de si, um adulto. Não por suas idéias, mas por suas neuroses diante do mundo e diante de si mesmo. Ele brinca tanto quanto Calvin, mas é reflexivo também, assim como Mafalda. Imagina se pudéssemos ter os três juntos em uma mesma história? Iria ser surreal... Pois bem, voltemos. “The Peanuts” trazem em si um contexto psicológico humano de maneira tão explícita, que nos incomoda. Vemos-nos reconhecidos nos atos e ações das personagens e nos apaixonamos por eles, ou melhor, por nós mesmos, pelo nosso espelho, mas não conseguimos nos rever. Através da turma do Minduim descobrimos realmente quem somos. E mesmo assim, não conseguimos mudar. Isso é monstruoso. Considerações à parte sobre quem é e como se portam os “The Peanuts” no mundo das histórias em quadrinhos e no contexto psicológico, temos que admitir que todos eles são apaixonantes e cativantes. Charlie Brown está na sua infância e também nos espelhos espalhados pela sua casa. E ele é um tanto quanto tímido e com certeza vai olhar você desconfiado na primeira vez que vocês se encontrarem, achando que você vai sacaneá-lo de alguma forma. Mas depois se torna um grande amigo... Charlie Brown é amigo meu. Quer conhecê-lo? Espere um pouco que vou ligar para ele e vocês já conversam.... - Alô? - Oi, o Charlie Brown está? - Está, quem é? - É a Lídia.... - Charlie Broooooooown, telefone! Ele já vem atender você. Ele está demorando porque está deitado no sofá, refletindo sobre as coisas que a Lucy disse pra ele hoje. Aliás, eu sou a Sally, irmã dele....quer conversar comigo? Surpreendentes, não?

Um comentário:

poetinha disse...

Nossa, muito bom ler isso tudo, pelo menos algumas vezes!! rsrsrs
Uma tirinha que eu sempre lembro, o Charlie Brown dizia, depois de mais um jogo: "como a gente pode perder sendo tão sincero?"
Faz lembrar que a vida é bem mais complexa do que a gente pensa.
Esse é o Botões: http://sobrenuvensefronhas.blogspot.com/2006/08/botes-e-saudade-eterna.html
Beijos