terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Brejo da Luz

Esses dias estive em São Paulo, a cidade mais agitada do Brasil.
O pior é que eu gosto desse agito todo. Gosto das luzes que a cidade apresenta, desse movimento sem fim de ir e vir e das possibilidades mil que as várias cidades dentro de São Paulo oferecem.
Certo. Quanto a isso, nada mais natural gostar de algum lugar que te fascina, te apresenta algo novo.
Dessa vez fui a lugares que não conhecia. Talvez dentro de mim mesma.
Resolvemos no sábado que iríamos visitar o Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca. Engraçado perceber como determinados espaços da cidade te lembram outros, tão bonitos e tristes quanto.
Fomos uma vez na Estação há algum tempo atrás, mas estava lotado e não conseguimos entrar. voltamos por um outro caminho e fomos aos poucos tropeçando nas pessoas, nas crianças. Esparramadas no chão. Caídas. Perdidas. Confesso que aquilo me assustou, não apenas no sentido do medo, mas na realidade tão nua, tão crua tão comum quanto troperçamos no cocô dos cachorros. Crianças, seres humanos tal qual os cocôs dos cachorros.
A Estação da Luz para mim tem um nome muito peculiar. Luz, iluminação é o que menos vi ali tanto da outra vez quanto dessa.
Para mim, o que havia ali eram sombras. Sombras de pessoas, de dignidades, de crianças. Um lugar lindo, histórico perdido num meio fio, num tempo em que o respeito ao ser humano, à própria vida não existe mais. Em meio a história, a história de tanta gente se perde. Se perde a história e os sonhos mais puros de cada um.
Saímos em uma saída do metrô que não conhecia. Não sabia como chegar à Estação. E aquelas pessoas, aquelas crianças, todas elas ali. Paradas, perdidas em craque, em cola em medo e desespero. Era como se tivéssemos mergulhado num túnel. Zumbis. Eram zumbis de si mesmos.
Me deparei com duas crianças procurando comida no lixo. O mais velho tenho pra mim que tinha no máximo seis anos. O outro não tinha mais do que três. Já sabe andar? então se vira.
e os olhos se fecham. Não há o que fazer. Por Deus, não há o que fazer. como assim?
Uma menina pedia para um homem, implorando quase, que lhe pagasse, seus olhos tristes e a boca entreaberta mostravam uma pessoa desfigurada, perdida numa inocência tardia, que teimava em insistir. Mas que já não havia mais. Bares, bebidas e sujeira.
Sobre o Museu da resistência eu falo um pouco depois, em outro post que quero muito discutir. Mas para mim, os passos apressados para chegar, os conselhos do guarda ao sair "cuidado meninas, aqui é perigoso", só demonstram que a tortura agora passou para um âmbito pessoal: para os nossos olhos.
Luzes e sombras num mesmo lugar. Pessoas apagadas com aquela luz em excesso e se arrastando pelas sombras.
E São Paulo fazendo quatrocentos e poucos anos hoje.
Fiquei de verdade pensando nisso. Porque saí da Estação da Luz no escuro. Com medo e pensando: o que se há de fazer? Como pensar isso num país que está montando a sua Copa do Mundo, Olímpiadas e nem ao menos se importa com sua sociedade? As pessoas estão morrendo. E não é lentamente. Estão num brejo.
e como diz o Chico Buarque, o Brejo da Cruz. Nem a Cruz salva mais.
Para mim é o Brejo da Luz. Porque essas crianças, essas pessoas estão lá, na história da cidade, numa das partes mais histórias de São Paulo e vão continuar sim, fazendo parte dessa história. Apontando para uma história que nunca sairá das sombras.
O brejo da luz. Da Estação da Luz.
E a novidade? Isso não é tão novo assim...

A novidade
Que tem no Brejo da Cruz
É a criançada
Se alimentar de luz
Alucinados
Meninos ficando azuis
E desencarnando
Lá no Brejo da Cruz
Parabéns São Paulo, Parabéns Brasil

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Odontologia

Floriano tinha 66 anos. 30 destes eram dedicados à odontologia.
- Porque uma boca saudável é tudo - costumava dizer seu Flor.
um dia um neto lhe pediu que comprasse uma bala.
- compra vô?
- balas fazem mal para os dentes, coma esta maçã que é melhor.
O neto olhou com desdém a fruta e disse:
- vô, o senhor não é feliz né? - e chupou a bala com gosto.
Seu Flor sentiu o sabor da infância naquele momento.

Mauro

Sr. Mauro, ou Maurinho como era conhecido em casa era um homem simples. Bom sujeito, trabalhador. Quando se aposentou do funcionalismo público resolveu viajar.
- Vamos, bem? - e chamou a esposa.
Esta era casada com ele há mais de 40 anos e friamente respondeu:
- Agora? Na semana que tem o capítulo final da novela? não dá.
E então Maurinho ficou triste. Nem os netos o animava mais.
- Deus, me mate - pedia todas as vezes. Mas nada acontecia.
Foi quando Maurinho resolveu ir conhecer o carnaval da Bahia. E lá conheceu uma preta folgosa, se apaixonou e nunca mais voltou.
A preta também via novela. Mas ele gostava dela mesmo assim.

A vida

um dia passei a questionar a minha vida.
Quem sou eu, de onde vim, para onde vou.
e então eu cansei e saí para jogar bola.

o joelho

uma noite, Paulo abriu os olhos e viu que o teto estava diferente. não reconhecia o lugar onde estava.
Olhou para o lado e uma mulher estonteantemente bela, nua, alisava carinhosamente seus pés.
- Amor? - disse ela sorrindo.
Paulo não tinha como acreditar naquilo. Quanto mais olhava para a bela mulher, mais pensava que era mentira.
- Seria um sonho? - pensou ele.
Tentou se beliscar. em vão. A única sensação que tinha era de uma ardência na perna esquerda. Não entendia bem porque, mas seu joelho pinicava.
- Onde dói, amor? - questionou a bela mulher que  Paulo não sequer sabia quem era.
- Aqui - mostrou o rapaz apontando o dedo esquerdo no joelho esquerdo, e fechando os olhos com a cabeça para trás, como se estivesse com uma grande dor.
Depois disso, morreu.