quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quarto de dormir

Quando a gente tem uns sete anos, mais ou menos, a gente começa a perceber o mundo a nossa volta. Eu, com sete anos, tinha mais dois irmãos menores e começava a perceber que o mundo a minha volta nunca seria o mesmo mundo das amigas que não tinham irmãos.
Tudo era um tanto diferente para mim nesse sentido porque ter dois irmãos com sete anos não é uma coisa fácil. E eu falo do ponto de vista de uma criança que teve que aprender a dividir tudo. Até os pais.
A atenção se volta para o bebê caçula, o seu outro irmão, no mínimo ainda está aprendendo a dar o laço no tênis e assim por diante.
A gente morava numa casa pequena, dessas pequenas mesmo. De esquina. Tinha um muro baixo que meu pai tratou logo de erguer quando o bairro foi recebendo novos moradores, quando a cidade foi crescendo e quando o perigo podia chegar. Antes do bairro se encher de gente que se enchia de falar com os vizinhos, ou antes da gente sentir medo do outro, o muro era baixo e eu gostava de ficar sentada no muro no final da tarde enquanto minha irmã andava de andador e meu irmão de motoca.
E a casa que a gente morava tinha dois quartos, um banheiro, uma sala e uma cozinha. Só. E uma antena na TV antiga que a gente tinha que ir lá fora mexer para o sinal pegar.
eu gostava de subir na antena. Era um passatempo bom e divertido.
Eu, como irmã mais velha, tinha habilidades que os pequenos ainda não tinham, e como irmã mais velha, isso me dava um certo poder. 
Lembro que dormíamos todos no mesmo quarto, nós 3. Dividíamos o guarda-roupa e o saquinho de Fandagos. E dividíamos também as historinhas que meus pais contavam à noite. Eu acho que tivemos uma vida bem comunitária na infância. Era tudo muito dividido. Uma vez me lembro de termos dividido um sorvete. E também já dividimos chiclete, paçoquinha e bombons como o sonho de valsa.
Quando eu fiz 12 anos meu terceiro irmão nasceu. Éramos em 4 agora e o quarto ia ficando cada vez mais apertado, o guarda-roupa também e todas as mãos no saco de fandangos tomavam agora uma proporção diferente.
E a gente dormia todo mundo junto.
Por ordem, o Lean, eu, o Lucas e a Laura. os menores dormiam encostados na parede para não terem perigo de cair da cama. E eu e o Lucas davámos um jeito nisso ficando no meio, com duas camas que eram puxadas debaixo das outras camas. À noite, minha mãe costumava dizer que para beijar todos os filhos tinha que ir rolando de uma cama para outra.
Eu achava isso engraçado.
E até os 17, 18 anos quando mudamos de casa foi assim. Todo mundo no mesmo quarto.
Na mudança, uma casa maior, a Laura e eu dormíamos juntas. E o Lean e Lucas em outro quarto. Mas vira e mexe eu dava eu jeito de dormir com os meninos também. Um pouco acho para matar a saudade daquele tempo. Muitas vezes, depois que o Lucas casou, pedi para o Lean colocar o colchão no meu quarto. E a Laura dizia que eu fosse dormir no quarto dele, pois tinha uma cama sobrando. Mas não era a mesma coisa.
E então eu saí de casa e fui morar fora. E depois eu voltei. Daí a Laura saiu de casa e foi morar fora. E daí voltou. E o Lucas foi morar fora, voltou e casou. E então não voltou mais. E a Laura foi morar fora. E não voltou mais. E o Lean passou na faculdade. E voltou para casa. E então eu fui morar fora de novo. E agora o Lean passou na faculdade de novo e foi morar fora outra vez.
E não tem ninguém mais morando no mesmo lugar. Não tem mais ninguém dormindo no mesmo quarto ou em quartos perto um do outro.
E nesses dias, quando me dei conta disso, de que a vida tinha passado, de que não via mais o Lucas brincando com o Kart dele, a Laura brincado na areinha no fundo de casa e o Lean fazendo os barulhos mais incríveis do mundo brincando de Power Rangers e depois do dia todo de brincar a gente indo dormir junto, eu chorei. Chorei fundo.
E hoje quando eu falei com o Lean que estava indo fazer a matrícula dele na faculdade, e quando eu falei com a Laura que estava estudando para o mestrado e quando eu falei com o Lucas que está procurando um apartamento maior para quando tiver filho, eu chorei de novo. E meu peito apertou.
Porque eu vi que nunca mais a gente vai viver assim, daquele jeito, naquela vida meio comunitária, cheia de gente, de bagunça, de dividir onde guardar a roupa e quem vai dobrar os lençóis e cobertores numa manhã fria de domingo.
E eu pensei que se um dia eu pudesse escolher, eu gostaria muito de morrer beeeeem velhinha. Bem velhinha mesmo. E se eu pudesse escolher de novo, que eu pudesse passar uma última noite no mesmo quarto com todos os meus irmãos.
Lembrando de uma época que na minha cabeça parece estar em preto em branco de tão antiga, mas no meu coração está pintada de dourado, de um dourado forte, feito ouro, raridade.
E então eu dormiria e diria: boa noite Lucas, boa noite Laura, boa noite Lê.
E pronto. Fecharia meus olhos e dormiria em paz.

Um comentário:

Marie Flufflin disse...

Sempre me fazendo chorar,cunhada!que lindo...
um abração telepático!