sábado, 3 de abril de 2010

Paralelepípedos

Conhecem aquela música do desenho animado "A Pequena Sereia" que se chama "Aqui no mar"? então aí vai a letra:
O fruto do meu vizinho
Parece melhor que o meu
Seu sonho de ir lá em cima
Eu creio que é engano seu
Você tem aqui no fundo
Conforto até demais
É tão belo o nosso mundo
O que é que você quer mais?
(every body) Onde eu nasci, onde eu cresci
É mais molhado
eu sou vidrado por tudo aqui
Lá se trabalha o dia inteiro
Lá são escravos do dinheiro
A vida é boa, eu vivo à toa
Onde eu nasci
Marilia é a cidade onde eu nasci e cresci. Já morei em outras cidades também, mas voltei para cá. Esses dias eu ouvi uma frase que me assustou: quando a gente sai da terra da gente e volta, é porque a gente nunca saiu.
Pois é, acho que nunca saí daqui mesmo. E o pior é que sempre acreditei que Marília pudesse ser uma cidade bacana mesmo, que pudesse crescer, se desenvolver, trazer cultura e educação para a população.
Ledo engano.
Ando um tanto quanto desolada dessa cidade há algum tempo, apesar de estar lutando a cada dia para trazer coisas boas, para melhorar. Mas não sei, alguma coisa muito provinciana tomou conta desse lugar aqui. Uma massa de falta de vontade, de animação muito grande. Pessoas que literalmente "empacam" qualquer possibilidade de desenvolvimento. Dizem: "mas ah, sair de Marília? aqui é tudo tão tranquilo, tão bom". Pois é, e é isso mesmo que me irrita.
Moro no mesmo bairro onde nasci. Tenho fotos de criança onde haviam casas antigas, ipês que brotavam flores coloridas, tudo na hora certa. E era tudo tão distante do centro...
Meu bairro agora está infernalmente lotado. Shoppings, lojas de madames e etc. Onde antes eu via uma paisagem imensa de café, de plantação de café, agora vejo máquinas e máquinas construindo cada vez mais, casas e casas. Fechadas. Cheias de porteiros eletrônicos.
Estão destruindo as casas antigas pra fazer lojas. Destruindo. Pouco a pouco a história da minha cidade que está se perdendo. O Cine Peduti virou estacionamento, o Cine Marília, banco, o Cine São Luís igreja. O teatro está fechado há dois anos. Foi construído um mini shopping do lado de um teatro que está caindo aos pedaços. O hotel São Bento, um dos primeiros da cidade, virou banco.
e hoje, debaixo de uma chuva imensa, percebi que os buracos por toda a cidade escondem auma história: está à mostra todos os paralelepípedos das ruas. Ruas antigas, bonitas, que davam para grandes espaços.
Asfaltadas, mal alfatadas no caso. Agora estão mal cuidadas.
Asssim como nós mesmos mal nos cuidamos. Da nossa saúde, dos nossos amigos, da nossa família. Estive doente esses tempos e sei que é porque dentro da gente também tem história. E das boas.
E com medo evitamos nos analisar, nos encontrar, ver esses "paralelepípedos" que nos impendem de criar novas possibilidades de vida, de espaço.
Sim, "você tem aqui no fundo, conforto até demais". E isso me irrita.
"onde eu nasci, onde eu cresci é mais molhado".
A chuva não está me deixando ver outra coisa. mesmo porque, quando faz aquele sol lindo das cinco da tarde, aquela luz perfeita, o que enxergo é uma falta de cuidado imensa pela história da minha cidade. Pelas praças, pelos brinquedos.
Está tudo tão mudado que naõ estou reconhecendo mais nada. E muitas vezes nem a mim mesma.
Guimarães estava certo, "viver é perigoso" e Cazuza também "morrer não dói".
o que dói é viver e ver que há tanto tempo quem deveria olhar para essa cidade não olha. Os paralelepípedos são as feridas da história a mostra. O tempo todo. dizendo: "humanos estúpidos, o que vocês têm feito da história de vocês?"
Progresso. Ordem e progresso.
Esqueçam a história. Até mesmo as nossas.

4 comentários:

Marie Flufflin disse...

O que é pior é que nós mesmos tínhamos que lutar por ela.Sinceramente Lí,considero que,das pessoas que conheço,você seja a única que realmente possa criticar o que se passa em Marília(me sinto mal de apontar o dedo pra defeitos sem fazer nada pra mudá-los).É a única que vê e que luta contra essa inércia.
Mais uma vez ganhei uma reflexão pra fazer,sobre a cidade e sobre mim mesma.Parabéns e espero que esteja melhor!

Dan disse...

E não é que é verdade?! Também me peguei lembrando da minha infância, de como eram as coisas onde moro e como ficaram, de como e a cidade e como eu adorav ir até o centro e hoje me pego empurrando alguém pra fazer isso por mim.
Concordo co a "colega" acima, você talvez seja a unica pessoa que possa criticar essa cidade.

E que bom te ver, um pouco melhor, sempre correndo, mas melhor =]

b-r arqui-design disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
b-r arqui-design disse...

Marilepípedos ainda existe debaixo do asfalto!
O Hotel São Bento, minha cara, não virou Banco. Foi destruído para virar Banco. Pior que se Hotel fosse em Curitiba, pro exemplo, ao menos a fachada seria preservado e ainda sim seria um Banco. Quando falo de Marília para alguns amigos eles me dizem 2 coisas: "Ah Aqueles vales!" e:"Já fiquei no Hotel São Bento!"
Ninguém além daí se lembra do Festival de cinema, não. Às vezes acho que nem aí se lembram...
Ah! E os vales pelos quais me apaixonei e dediquei parte de minha vida para trabalhar e morar diante de um deles? Para a imensa maioria dos marilenses é um buraco que poderia encher de lixo (haja lixo!) ou fizessem a maior barragem do mundo e fizessem um grande lago (megalomaníaca essa idéia, mas muitos pensam nisso ainda hoje). A saída? é investir em cultura, minha cara agitadora cultural. De tanto insistirmos na plantação uma hora a colheita vem.

Beijos e abraços