domingo, 16 de dezembro de 2012

Cicatriz

eu sempre achei a palavra cicatriz uma palavra bonita. me lembrava "por um triz". e "por um triz" muitas coisas podem acontecer.
o cenário é uma família que pensa que é uma família, mas na verdade são conhecidos que convivem no mesmo espaço, ou que suportam-se em espaços diferentes. pessoas que têm o número do celular de todas as outras, mas que não se ligam, que não se comunicam.
se tomássemos o cenário como uma família típica dos anos 1930 em um espaço rural teríamos uma mesa de madeira bem grossa, membros sentados nas cadeiras, uma cruz na parede que cortava a sala e um silêncio profundo, daqueles silêncios de fazer barulho e zunido no ouvido.
- pai, embuchei.
- pai, matei um homem.
- pai, tirei o cabaço da moça.
- pai, acabou a farinha.
- pai, vou casar com o fulano.
o remeter contar ao pai os fatos do que acontece ou aconteceu tem um sentido muito forte de confissão. de desabafo, ou também e tanto, de tentar uma comunicação.
e o pai, lentamente tomando a sopa rala de farinha de mandioca diria:
- embuchou sua puta?
- cadê o sangue?
- esse é meu filho, cabra macho.
- se vira, mulher!
- não casa de jeito nenhum. só por cima do meu cadáver. casar e com um negro, onde já se viu...meto uma porrada sem tamanho em ti e nele...
e o isolamento, necessário para o convívio, ou suportamento dos membros da família, estaria garantido no caso de uma tentativa de rompimento. o pai manda e acabou. e ponto final.
e nada que se faça iria alterar essa situação. nada.
ele bateria com força na mesa, cuspindo um pouco de sopa, gritando e impondo o que pensa. sim, estavam todos bem ao redor da mesa, todos que estavam lá estavam bem e com saúde. mas isso não era o mais importante. o mais importante era se impor, dizer quem era e quem mandava ali.
a mãe fazia o nome do pai e pedia a deus que nada de mais grave acontecesse à filha embuchada, que nada de mais grave tomasse força com o casamento da moça loira com o negro, que o menino tivesse sido ao menos delicado em retirar o cabaço da moça, que a morte tenha sido em função de defesa pessoal que houvesse ainda um pouco de farinha.
que a cruz de madeira pendurada atrás da mesa, acima da cabeça do pai caísse com força sobre ele e o matasse. que formasse uma cicatriz ali, bem naquele ponto. 
mas por um triz isso não aconteceu. e por um triz a moça embuchada não levou um soco do pai alterado e a moça enamorada do rapaz negro não levou um pontapé.
por um triz a faca que a mãe segurava não acertou em cheio a cabeça do marido.
tudo por um triz. um triz.

Um comentário:

Marina disse...

Linda escrita ...