segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

o joelho

uma noite, Paulo abriu os olhos e viu que o teto estava diferente. não reconhecia o lugar onde estava.
Olhou para o lado e uma mulher estonteantemente bela, nua, alisava carinhosamente seus pés.
- Amor? - disse ela sorrindo.
Paulo não tinha como acreditar naquilo. Quanto mais olhava para a bela mulher, mais pensava que era mentira.
- Seria um sonho? - pensou ele.
Tentou se beliscar. em vão. A única sensação que tinha era de uma ardência na perna esquerda. Não entendia bem porque, mas seu joelho pinicava.
- Onde dói, amor? - questionou a bela mulher que  Paulo não sequer sabia quem era.
- Aqui - mostrou o rapaz apontando o dedo esquerdo no joelho esquerdo, e fechando os olhos com a cabeça para trás, como se estivesse com uma grande dor.
Depois disso, morreu.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Garrafas ao mar

Quando éramos crianças, a família costumava viajar para a praia. E era sempre uma emoção porque, além da oportunidade de ficar todo mundo junto, tinha refrigerante de latinha (algo muito estrondoso pro nosso bolso) além de sorvete à vontade.
E era sempre bom. E a gente sempre ia com aquela expectativa de criança, de brincar na praia, de fazer castelinho, de pegar onda. E tinha milho verde e tinha sorrisos e tinha a gente dormindo junto depois da pizza.
Me lembro que meu pai quando via que estávamos chegando perto do mar dizia:
- Quem ver o mar primeiro, dá um grito!
e era uma festa de criança no carro e a gente se divertia e ria. E era bom.
E era só o que a gente como criança precisava. Quando a gente é criança a gente não tem muitas necessidades. E as que temos é facilmente supridas pelos nossos pais, pela comida ou por um pouco de atenção.
E a imaginação fazia o resto.
Mas parei para pensar esses dias quais são as nossas buscas, aquelas mais profundas e verdadeiras do nosso ser, sabe? Aquelas que quando a gente olha no espelho e está com 30 anos a gente pergunta:
- Onde foi que eu errei?
ou se olha e pergunta de novo:
- Onde foi que ficaram meus sonhos?
Pois é, e muitas vezes esses sonhos não são apenas nossos, do nosso desejo, mas um tanto quanto daquilo que buscamos no outro e não dentro de nós mesmo. e daí que é o problema.
a gente fica meio sem ação quando o outro não corresponde ao que queremos, ou ao que pensamos, porque o depósito de sonho tem que ser nosso e tem que vir de dentro de nós lutar por isso.
e então que bate uma tristeza e aquela lembrança bonita de se pensar:
- eu era feliz e não sabia.
oras, é lógico que você sabia, é só o tempo que escorreu tão rápido por suas mãos que não fomos capazes de anotar as diversas referências que fizeram da gente o que a gente é hoje.
e isso causa um estranhamento e uma dor muito forte porque é como se alguém tivesse nos atropelado no meio do caminho, antes da gente chegar onde a gente queria chegar e daí você tem que se contentar em ser o que é e ponto.
e o mais difícil é o passar das horas, é saber ouvir e compreender as diversas limitações que possuímos. E então escolher.
A escolha é muito difícil, muito mesmo.
Porque veja bem, quando a gente é criança e vai para a praia com os nossos pais, a gente não escolhe muito o caminho a seguir, é aquilo e pronto. Mas quando a gente cresce e tem que escolher entre amar e ser amada, entre ir e ficar e entre ser o que se é e o que outro gostaria que fôssemos é que dói.
e me lembro de uma vez na praia meu pai contar algumas histórias sobre a forma de se comunicar com as garrafas ao mar, escrevendo no papel alguns segredos, pedidos de socorro, enfim.
e então que a gente pensou nisso, de escrever alguma coisa em um papel, colocar numa garrafa e jogar ao mar. eu não me lembro bem o que escrevi, mas foi divertido de fazer.
jogamos a garrafa no mar e perguntei ao meu pai:
- será que alguém vai achar o que escrevi, pai?
e ele me disse que o mais importante era tentar.
e o sol se pôs várias vezes depois dessa conversa. e os anos passaram e a gente não vai mais para a praia. e nem grita quando vê o mar.
mas isso tudo são escolhas. bem como quando escolhemos o que escreveremos nas marcas da nossa pele e na nossa história de vida.
e quando olhamos a direção do mar para onde iremos mandar a nossa garrafa cheia de histórias, estamos fazendo uma escolha.
e isso é o mais bonito: saber escolher o caminho para onde vai jogar seus sonhos e ter a esperança de que quem possa vir a achá-lo seja você mesmo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Genésio









Há tempos que eu estava devendo um post bacana, desses que a gente pode dar risada, pensar e inventar. Bem, aqui está ele. Os desenhos do Genésio foram feitos pelo meu amigo passarito Thiago, que trabalhava comigo no Jornaleco de La Matina, nos idos de 2009-2010.
O Thithi e eu de cara meio que viramos irmãozinhos. Dividíamos a sala do jornaleco nos corredos insalubres por onde o ar não entrava, mas a chuva sim. rs.
Íamos direto almoçar no "tio da refeiça", ou um botequinho de comida caseira em frente ao jornal onde tínhamos severas crises de riso e onde inventamos mil personagens e ideias.
Era sempre muito bom estar com ele porque eu me divertia muito. A nossa sala no jornal era a mais diferente, tinha sempre recadinhos, desenhos e bilhetes pela sala toda. rs.
enfim.


Thiago e eu no lançamento da Café Espacial #8 em Marília
 Eu saí do jornal mas o Thithi, meu amigo passarito continua lá e por ser amigo da minha irmã também estamos sempre que podemos juntos dando risada de alguma coisa.
Foi então que ele me chegou com esse personagem de cupido, e eu de cara disse: meu, tem que ser genésio o nome dele.
Nem sei porque falei isso, mas achei que combinava demais com essa cara irônica e mal humorada de um cupido meio esquisito....
Quando eu entrei no jornal a minha ideia era fazer do Caderno de Cultura, ou Caderno 2 como é chamado, um caderno diferente, cheio de informações novas, com muitas coisas ricas culturalmente falando. A minha primeira ideia era colocar quadrinhos, pessoas de Marília que fizessem quadrinhos e o Thiago era um deles que estava pensando. Bem como um projeto diferente, onde ao invés de foto eu pudesse usar ilustrações e desenhos numa leitura mais clara e limpa dos fatos culturais da cidade e dos artistas locais.
Claro que foi um sonho, imagina. Uma cidade de interior, com uma mentalidade mais interiorana ainda trazer alguma dessas referências para o jornal. Levei muitas na cabeça, é claro. Mas nunca deixei de pensar o tanto que seria legal.
E então no ano novo o Thithi foi em casa e me levou os desenhos. Passamos uma tarde imaginando a personalidade do genésio, quem ele seria e como seria. E foi então que acabou saindo algumas ideias e alguns desenhos que você pode ver aqui.
A maioria é claro, são ideias do Thithi, porque quem é talentoso é e pronto. Mas eu adorei ter participado disso e ter feito parte de pensar o Genésio.
O contexto lúdico, a forma de brincar e a liberdade dos traços, das falas marcam para mim que devemos ousar algumas vezes, brincar com o que não conhecemos.
Espero que vocês gostem e deem nem que seja uma risadinha. Afinal, o Genésio é um puta dum sacana e pra ele fazer você se apaixonar feio, ou por alguém muito feio, o que é mais a cara do Genésio, é uma flecha.

domingo, 2 de janeiro de 2011

a carta

*extraído de "cartas a ninguém". de Ana Lemos. 

Precisamos conversar, quer dizer, melhor, talvez eu que precise falar. ou ouvir. não sei. não vou te cobrar. não vou. mas eu preciso ouvir de você o que foi que aconteceu com a gente. preciso ouvir, tá entendendo? eu preciso ouvir de você que a culpa não foi minha. se é que existe culpa numa situação como essa, numa situação em que mais latente do que isso, seria o sentimento que tenho por você.
escuta, o que foi que te disse quando te beijei pela primeira vez? ou você por acaso já esqueceu que me beijou algum dia? eu te disse claramente: eu não consigo confiar nas pessoas. eu não consigo. mas quero confiar em você. eu gosto de você.
e te beijei. te abracei. e dormi com você. dias e noites. e você me viu inteira, examente como eu sou, com os meus medos, meus desejos e minhas vontades. eu estava lá, à vontade, inteira pra você. e o sentido aqui não é apenas carnal. é de vontade de estar junto. de querer bem. de estar bem.
eu me sentia bem com você, eu me divertia. eu ria. eu ficava leve.
me diga, pra que isso? pq vc me afastou assim?
eu vi no último telefonema que te dei. frio, distante quase um conhecido. mas não era mais você. o cara por quem eu me apaixonei, veja bem, me apaixonei, não está aqui na minha frente agora. é outra pessoa.
sim, é bom que as pessoas mudem, mas quem foi que eu conheci? eu te projetei, é isso? é ficção? tá, te inventei agora. foi isso.
entendi.
por favor, me diga o que eu fiz. foi culpa minha? existe culpa? de quem foi?
que porra é essa de amor que me faz doer? que me faz sentir sua falta?
e eu fico horas vendo o email, lendo e relendo, atualizando pra ver se chega uma mensagem sua. uma carta. um sinal de vida.
seu covarde.
isso que você é. um covarde.
daqueles grandes.
eu te disse que ia me apaixonar. eu te disse. e você insistiu e pronto. ponto final. me esqueceu. como aqueles brinquedinhos que a gente cansa quando é criança e procura outro.
escuta aqui, seu merda. eu não sou um brinquedo. eu naõ te inventei e eu não criei vc sozinha. eu te vi do meu lado. eu te beijei.
e eu pedi pra vc não me machucar, eu pedi.
mas sabe o que é? o pior não é vc ser esse covarde, esse grande filho da puta que vc foi. o pior é que eu não posso ficar aqui me lamentando, pedindo esmola, me alimentando dessas migalhas que vc está me dando. não.
a errada aqui sou. e eu te digo mais, vc não vai me quebrar. cada palavra que eu escrever é uma forma de tirar vc de mim e da minha cabeça. e cada vez que eu pensar eu vc, cada vez que eu lembrar de vc, os meus melhores pensamentos voltarão para mim.
eu não vou deixar você invadir meus pensamentos assim. não vou.sabe pq? pq eu não mereço isso. não mereço.
não mereço saber que vc está com outra e vc beijá-la na minha frente. não mereço um homem como vc, sem culhões que naõ soube ao menos o que é respeitar o sentimento de uma mulher.
não não. não me venha com a desculpa de que o problema é vc e não eu. isso naõ cola.
aliás, cola sim. vc é um problema. pra vc mesmo.
todos aqueles dias que tivemos, todos os carinhos, tudo. eu vou jogar num saco. ou melhor, vou escrever. e vou queimar.
você é um covarde de fazer isso. um covarde.
às vezes a gente convive anos com uma pessoa e não a conhece de vdd.
eu vou buscar conhecer a mim mesma. e vc, o que vc vai fazer com td isso é problema seu.
só quero que vc saiba que aqui dentro você não entra mais. de maneira alguma. os meus pensamentos estão fechados e ao colocar vc no papel e queimar, vou queimar vc também.
não me venha com essa ideia de que está confuso. enfie a confusão no seu rabo. e nem de que gosta e quer ficar sozinho. vai se danar.
a vida é muito maior que isso e dessa marca que vc deixou em mim eu vou fazer uma história. das mais belas. e vou estagnar esse sangue que jorra daqui de dentro. deixe estar. isso um dia há de parar de doer.
e daí meu querido, quando isso acontecer, já viu. eu vou sorrir. e lentamente vou ser feliz. ou triste. mas vou ser eu de novo. e não o que você esperava que eu fosse.
e não vou lembrar dessa dor. pq as dores passam. a gente lembra que sentiu, mas não sabe mais como eram. elas se fecham. elas param de fazer com que nossos olhos fiquem marejados.
eu não tenho mais medo, tá? não tenho.
eu me humilhei quantas vezes pra vc me explicar algo e vc se calou. fechou os olhos, abaixou a cabeça e se calou.
e eu quero duas coisas de vc. apenas duas.
uma é a sua distância.
e outra: me devolve o que eu tinha de melhor que era a capacidade de confiar em alguém. em achar que o amor realmente valeria a pena.

sábado, 1 de janeiro de 2011

o dentista

ele entrou e com um sorriso disse: - oi. eu não respondi, apenas sorri lentamente e abaixei a cabeça. era a primeira vez que o via no meio daquela multidão toda que é um consultório de dentista. sentou perto, pegou um livro que tinha na bolsa e começou a ler. raramente olhava para o lado, de tão concentrado que estava na leitura. eu fingia que lia uma revista. folheava as páginas olhando de rabo de olho para a poltrona a minha esquerda. ele sentou perto do bebedor e o máximo que dizia era: - desculpa. dizia porque sentado perto, todas as pessoas que tinham que beber água tinham que pedir licença para passar. moreno e com um sorriso lindo. tinhas os cabelos meio assim sabe? jogados e bagunçados. havia mais umas 4 pessoas na sala, naquele dia a consulta atrasou. o ar condicionado quebrado denunciava um certo calor na sala, o que me conduzia a tentar dizer pelo menos uma frase: - tá calor né? mas não disse. senti vontade de dizer, mas não disse. ele continuava a ler o livro e eu a folhear a revista. de um lado para o outro. abaixei a cabeça e comecei a ler a reportagem que falava sobre a dieta saudável. isso está bem na moda. - você tem horas? levei um susto. - hã? - horas? você tem? ele estava me perguntando as horas. não sei ao certo quantos segundos eu demorei pra responder. ou pra ver que o relógio estava no meu pulso esquerdo. - ah sim, três e quinze. - obrigado. tá calor aqui né? - hã? não sei se deveria estar no dentista aquele dia porque ele deve ter pensado que eu deveria estar no otorrino. garota meio surda. - ah sim. isso lá está. calor. - prazer. carlos. - lia. - rotina lia? ou usa aparelho? - rotina. mas já usei muitos aparelhos. nossa. - (risos). eu vou fazer o teste hoje pra usar um também. - legal. Legal? como assim legal, porra? quem em sã consciência fala isso para alguém? silêncio. ele voltou para o livro e eu para a revista. mas os olhares começaram a se cruzar lentamente. entre um olhar e outro, ele abaixava os olhos e eu os meus. os olhares não se encontravam. só as vontades e pequenos espamos de sorriso. - lia. entrei e sorri para ele. na hora de sair ele estava ainda sentado lendo o livro. e eu passei rapidamente por ele pra pegar água. - desculpa, lia. ele disse. e eu: - não foi nada. e num lapso, falei: - quer sair pra um café? - fiquei vermelha. como eu tive coragem, meu deus? ele sorriu, agradeceu e disse: - você me espera depois da consulta? - sim. - carlos - a atendente o chamou. deixou o livro no sofá, sorriu e entrou. eu fui ao banheiro, arrumei os cabelos, a blusa e o sorriso. o banheiro era daqueles antigos, de azulejo rosa e pia grande. saí, peguei o livro na mão e deixei-o de volta no sofá. fui embora. não vi mais o carlos. e o pior: esqueci de ler o título do livro. no caminho de casa, meu celular toca. - lia, é do consultório. você deixou o livro aqui. e alguém pega o telefone: - é lia. você deixou o livro. e um café. vamos? sorri. dei meia volta e nos encontramos no café mais antigo da cidade. ele já estava de aparelho e eu com as mãos frias e um sorriso sem graça. - desculpe convidá-lo assim. sorri. ele sorriu de volta.