e eu que nunca gostei de cachorro me aparece essa no primeiro dia do ano.
Nina. foi o nome que eu dei pra labradora que apareceu em frente de casa depois da meia noite.
fui lá fora bater a toalha de mesa (coisas de quem mora em casa no interior, um costume. "é pros passarinhos comerem o que sobre, filha", diz a tia velha. rs. meus amigos de apartamento batem a toalha no tanque de lavar roupas. enfim).
fui lá fora bater a toalha de mesa depois da ceia e quem está sentada no portão? ela. uma cachorra muito parecida com essa da foto.
- vc está perdida, mocinha? - questionei.
ela não respondeu, ainda bem. rs. porque senão eu ia achar muito estranho.
mas olhou pra mim com olhos perdidos.
o lú meu amigo e a laura minha irmã foram lá fora ver. demos água e ficamos tentando acalmá-la porque os barulhos de bomba estavam terríveis e ela estava muito agitada.
minha mãe chegou.
- coloquem ela na área.
a nina entrou.
tinha marcas de coleira e nas patas. bobona que só. vinha perto de mim e do meu pai qdo a bomba estourava. e queria pq queria entrar dentro de casa. uma fofa.
meus amigos chegaram.
a rê, o bruno, a ana e a gisa. a rê é veterinária, entendia mais e disse que deveria ser da região e bem velhinha pq os dentes estavam gastas e o pelo muito bem cuidado.
ficamos conversando até às cinco e a nina junto. ela dormiu e os meninos foram embora.
a hora que saí da área e fechei a porta a nina começou a chorar. e mais uma bomba estourou.
e ela foi desesperada no portão tentando sair.
como tinha saído antes, abri pra ela dar uma volta e voltar. ela não voltou.
acho que foi pra casa dela. eu acho.
mas me deu uma saudade da bichinha imensa! nossa! como se ela já fosse minha há muito tempo.
e foi quando eu me dei conta da importância do olhar. a nina não fala, é claro. mas me contou um monte de coisas lindas. dócil, meiga.
e não tem espaço em casa pra um cão assim. uma pena.
eu ia amar ter uma nina pra mim.
eu sempre gostei de labradores. nunca fui fã de cachorro, mas acho labradores lindos.
e me apaixonei pela nina nas poucas horas que ela ficou comigo.
que dor não vê-la ali.
mas ela vai estar aqui dentro. pra sempre.
e se o ano começou com uma surpresa tão boa assim, só coisas boas podem vir.
sábado, 1 de janeiro de 2011
nina
e eu que nunca gostei de cachorro me aparece essa no primeiro dia do ano.
Nina. foi o nome que eu dei pra labradora que apareceu em frente de casa depois da meia noite.
fui lá fora bater a toalha de mesa (coisas de quem mora em casa no interior, um costume. "é pros passarinhos comerem o que sobre, filha", diz a tia velha. rs. meus amigos de apartamento batem a toalha no tanque de lavar roupas. enfim).
fui lá fora bater a toalha de mesa depois da ceia e quem está sentada no portão? ela. uma cachorra muito parecida com essa da foto.
- vc está perdida, mocinha? - questionei.
ela não respondeu, ainda bem. rs. porque senão eu ia achar muito estranho.
mas olhou pra mim com olhos perdidos.
o lú meu amigo e a laura minha irmã foram lá fora ver. demos água e ficamos tentando acalmá-la porque os barulhos de bomba estavam terríveis e ela estava muito agitada.
minha mãe chegou.
- coloquem ela na área.
a nina entrou.
tinha marcas de coleira e nas patas. bobona que só. vinha perto de mim e do meu pai qdo a bomba estourava. e queria pq queria entrar dentro de casa. uma fofa.
meus amigos chegaram.
a rê, o bruno, a ana e a gisa. a rê é veterinária, entendia mais e disse que deveria ser da região e bem velhinha pq os dentes estavam gastas e o pelo muito bem cuidado.
ficamos conversando até às cinco e a nina junto. ela dormiu e os meninos foram embora.
a hora que saí da área e fechei a porta a nina começou a chorar. e mais uma bomba estourou.
e ela foi desesperada no portão tentando sair.
como tinha saído antes, abri pra ela dar uma volta e voltar. ela não voltou.
acho que foi pra casa dela. eu acho.
mas me deu uma saudade da bichinha imensa! nossa! como se ela já fosse minha há muito tempo.
e foi quando eu me dei conta da importância do olhar. a nina não fala, é claro. mas me contou um monte de coisas lindas. dócil, meiga.
e não tem espaço em casa pra um cão assim. uma pena.
eu ia amar ter uma nina pra mim.
eu sempre gostei de labradores. nunca fui fã de cachorro, mas acho labradores lindos.
e me apaixonei pela nina nas poucas horas que ela ficou comigo.
que dor não vê-la ali.
mas ela vai estar aqui dentro. pra sempre.
e se o ano começou com uma surpresa tão boa assim, só coisas boas podem vir.
roseira
"quando eu cheguei aqui, em 1973 era primeiro de janeiro. eu não sabia para onde ir, onde dormir e nem o que fazer. uma mão na frente e outra atrás. eu fui atrás de pensão, de algum lugar para ficar, mas o centro da cidade estava vazio. eram quase três da tarde e não havia uma alma naquela rua. a fome apertava, o dinheiro não dava e o medo era grande. dos três, entre a fome, o dinheiro e o medo, o medo vencia de longe. era o que mais me doía. é o medo de enfrentar o que é novo, o que está diferente e o por vir. pois então que resolvi entrar em um bar, desses de boteco, desses qualquer. sentei e pedi um copo de água. da torneira. talvez que o dono do bar tenha visto meus olhos de fome. na minha frente um japonês lanchava um lanche gostoso. ou melhor, não sabia se era bom ou não, só sabia que ele comia algo e isso para mim já era muito. nos olhamos e então ele me perguntou:
- o que está fazendo nessa cidade?
- vim estudar.
- sei. já tem onde ficar?
foi aí que conheci o meu primeiro colega de república.
e entendi que na nossa vida as pessoas não aparecem por acaso ou do nada. e esse medo que eu tive, esse medo grande tinha que ser vencido porque não dava pra voltar pra casa. não tinha mais casa e eu nos meus idos dos 19 anos. estudei e ralei. feito um louco. dia após dia. e hoje, em 2011 eu olho para trás e vejo o que consegui: quatro filhos lindos, uma esposa maravilhosa, bom amigos e um monte de coisa boa. passar o dia com vocês na cozinha foi emocionante. foi o meu presente de natal atrasado, foi o meu olhar para fazer o melhor peixe, a melhor abobrinha. não me importa se é chique, se não é. tem. e tem de sobra. e tem vocês todos.
Feliz 2011. com todas as forças, trabalhos, diferenças e dificuldades que ele pode trazer. tudo na vida anda conforme tem que andar. não tenham tanto medo, tenham sabedoria e particularmente, tenham fé. é isso que nos move.
um beijo.
pai".
um ano cheio de chuva quando estiver bem calor, cheio de sol quando estiver bem frio, cheio de abraço quando estiver triste. e quando estiver feliz também. cheio de pequenas grandes coisas porque é disso que é feito o caminho.
domingo, 26 de dezembro de 2010
As formigas
enquanto estava eu lá, sentada falando e falando e falando, tentei dar conta de algumas coisas que ainda estariam latentes e outras tão afundadas, cobertas com uma camada grossa de poeira, de sujeira que muitas vezes fui eu mesma quem sujou.
nisso, nesse meio tempo foi chegando o natal e natal para mim sempre é uma época um tanto quanto difícil internamente.
o natal chega e com ele chegam todas aquelas pessoas que de longe, de muito longe você não via mais. e chega junto um monte de comida, de fala e de caprichos sem limite que me deixam no meu limite de tolerância.
amor, paz, e etc. porra papai noel!
e então chegou a chuva, o vento e a neblina. e todas as histórias do mundo.
"eu trabalhava em um cinema quando era criança. era legal porque era a única maneira que eu tinha de assistir filmes. dinheiro não havia. nada. nem um pouquinho. mas qdo chegava em casa tinha sopa de pé de frango. e já era muito. mas o cinema me deixava feliz. e eu ia de um cinema para o outro com um rolo de filmes 16mm porque senão não dava tempo das pessoas assistirem o outro filme. e eu ia. com meus 8 anos e uma curiosidade incrível. e era legal porque eu sentia que estava fazendo algo muito interessante para um garoto de 8 anos muito pobre. e eu ao voltar para casa passava em frente à venda. meu pai tinha uma venda. uma vendinha. mas não era lá que tinha os doces mais gostosos da vila. eu gostava do doce de suspiro rosa. hummm. me dá até água na boca. mas não tinha dinheiro pra comprar. e então eu voltava pra casa tomava a sopa e ia dormir. com fome. mas ia. e quando chovia, sabe? igual chove nessa época de natal o meu barato era ficar olhando embaixo da cama e vendo a água passar pelo chão de terra. aquele chão de terra batido, bem batido. e era um barato porque eu não sabia ao certo o que estava acontecendo. mas era bom".
e então eu vi que a mesa estava farta, cheia de comida. sempre sobra.
e eu olhei para o lado e vi que estava falando, falando sem parar e as formigas passavam apenas, de um lado para o outro como quem não quer nada.
resolvi ficar em silêncio e me concentrar nelas. elas apenas viviam. apenas isso. não tinha um sufoco de pensar algo além. estavam elas vivendo.
e eu vi que estava ouvindo a história com quem está guardando aquele grande pedaço de migalha de pão no formigueiro. que vai me alimentar por anos a fio.
eu não sabia ao certo o que estava sentindo naquela noite. mas era bom.
obrigada, pai.
feliz natal.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sussurro
vai passar, isso vai passar....
quando eu era criança, só de ouvir a voz da minha mãe, qualquer dor que eu tinha, fosse emocional ou de criança levada, passava. era como se fosse um remédio. daqueles que curam até a alma.
minha mãe gostava de fazer bolo, de brincar de esconder, de cantar e de dar risada. era sempre bom. mas tinha uma coisa que ela gostava sempre, que era de enfeitar a gente. e ela enfeitava, enfeitava e deixava todos os filhos assim, bem bonitos.
mas teve um dia, que não me lembro bem, quer dizer, me lembro de pouca coisa, que vi minha mãe deitada.
ela estava deitada na sala. bonita, arrumada. dormia um sono tranquilo. tinha levantado mais cedo para fazer um bolo e depois só a vi deitada na sala.
minha avó e meu pai também estavam na sala e choravam porque ela estava deitada.
mas para mim ela estava dormindo. e eu a achava bonita com aqueles cabelos pretos e aquela pele branca deitada, leve.
e eu não entendi muito bem até hoje, mas acho que ela ainda está dormindo.
porque nunca mais ela me enfeitou e nunca mais teve bolo.
ainda hoje eu tento me enfeitar. mas enfeitar a alma dói, sabe? dói muito.
eu não a vi mais. mas toda vez que me enfeito, toda vez que eu sorrio e toda vez que eu canto eu lembro dela. e isso me faz ficar melhor.
e eu falo sempre baixinho para mim mesma até o dia que eu vir minha mãe acordada de novo.: "vai passar, isso vai passar..."
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
A vida segundo C. L.
“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”
E como ser diferente? mergulhar em si mesmo talvez seja o mais profundo e absissal sofrimento. E também o mais divino perdão. Perdoar não no sentido cristão, mas no sentido de sentir a si mesmo como um ser humano, alguém capaz de erros tão incomuns quanto uma chuva de sapos.
Ao não exigir muito da vida não deixamos de nos levar a sério. Não. Apenas nos deixamos sentir o que a vida nos apresenta. E isso é raro. É o mais raro.
A paixão é uma dor tão forte, mas tão forte que parece que vai nos sufocar na falta do outro. E o outro muitas vezes somos nós mesmo.
Entender não é o mais importante. E aprender isso com 30 anos é o maior presente que se pode ter.
Superexigir-se menos. Da vida, do outro, de si.
C.L.
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